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Reflexões sobre Psiquiatria Clínica, Psicoterapia e Saúde Mental

Qual o quadro das toxicodependências actualmente?

Quando se tem por referência o contexto da prestação de cuidados na comunidade e, tendo por base a experiência na colaboração com clínicos gerais (medicina familiar), é frequente a observação de que não há, ou “não tenho no ficheiro”, doentes com problemática aditiva. Puro engano… calcula-se que, neste contexto, 25% dos doentes estejam referenciados por patologias desta natureza, nem que seja em termos de comorbilidade. Se considerarmos a população doente (internada), a percentagem sobe consideravelmente (autores apontam 35%). Se acreditarmos na patologia (na sua existência e na importância que ela detêm em termos psiquiátricos, e nas múltiplas facetas de feição socioeconómica), fica imposto que se façam algumas perguntas simples: usa substâncias não prescritas/ilegais? Fuma tabaco ou drogas? Bebe álcool?

Outra ideia frequente, é a que estes doentes são doentes difíceis, violentos, que não cumprem o que lhes é solicitado, que usam substâncias porque não têm vontade ou carácter… No caso de uma perturbação psicótica (esquizofrénica, por exemplo), aprendemos a valorar o complexo sintomático e as alterações do comportamento como decorrentes da doença, contudo, no caso das toxicodependências, é difícil (mesmo aos profissionais de saúde mental, pessoas que deveriam reconhecer a doença, os seus contornos fenomenológicos e mestres na arte da relação contentora), compreender estas decorrências clínicas e não conter o que de pior temos em termos internos e relacionais (contra-transferenciais), colocando em marcha padrões de relação não terapêuticos, malignos, terminando a relação (que se queria terapêutica) antes de ter começado. No seu conjunto, estamos a falar de perturbações crónicas e recidivantes que, em muitos aspectos, guardam similitudes com as doenças infecciosas (em termos do seu padrão evolutivo e noutros aspectos que desenvolveremos oportunamente), com a doença hipertensiva, a diabetes, etc., ou seja, devem contextualizar-se numa diátese ampla, própria ao enfermar humano.

A experiência clínica é aqui (também…) fundamental, no sentido de integrar o estranho numa constelação (que se quer própria ao terapeuta) mais equilibrada e funcional.