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Compreender o abuso e a dependência de substâncias

A comunidade, de uma forma geral, olha para o abuso e para a adição de substâncias, como uma problemática de índole social. Acredita-se facilmente que as pessoas que usam substâncias de potencial aditivo são, de alguma forma, destituídas de vontade, de carácter, moralmente ou criminalmente tocadas. Com efeito, o uso de substâncias psico-modificadoras, com efeitos psicotrópicos, é um problema grave de saúde publica, atravessando todas as classes sociais e com repercussões gravíssimas em termos dos custos para uma comunidade.

O contacto com a substância psicoactiva, iniciará um conjunto de notáveis modificações neuro-químicas, que iniciarão modificações de médio/longo prazo ao nível do metabolismo e da actividade cerebral que, em algum ponto da cadeia, vão sustentar alterações neuro-químicas, endo-fenotípicas e estruturais que caracterizam a passagem do abuso à adição enquanto doença crónica, duradoura e recidivante.

O tratamento, quando bem conduzido, introduz efeitos muito positivos e favoráveis sobre a pessoa doente e também sobre a comunidade, pela melhoria do funcionamento psicológico e social, pela diminuição da criminalidade associada e pelas doenças físicas e patologias psiquiátricas relacionadas. Fundamental será portanto, estreitar o “gap” entre a percepção pública da adição de substâncias (toxicodependência), e aquilo que mostra o conhecimento científico, carreado particularmente pela experiência clínica, ou seja, pelos que observam, tratam e compreendem pacientes em condição de adição. A adição de substâncias é uma patologia crónica, duradoura e recidivante.

Tal como na asma, na hipertensão ou nas doenças auto-imunes, em que por vezes perde-se o controle da expressão clínica da doença, também aqui, a recidiva do quadro (com todo o desastre que isso representa), não significa que o tratamento “não esteja a funcionar”, que o paciente não tenha vontade e não esteja a fazer o esforço necessário (uma das coisas que está aqui doente é justamente a vontade). Ou finalmente, que o doente não venha a ter nunca mais uma vida sem doença. Significará, antes, que não tomámos em linha de conta, no projecto terapêutico, as variáveis próprias à estrutura dependente daquele paciente em concreto.

A disponibilidade fácil das substâncias e as variáveis ambientais, são algumas dessas condicionantes (para o conjunto amplo das substâncias, algumas delas começaram por ser fármacos prescritos, como se passa hoje por exemplo com o fentanilo… no passado foi a heroína e a cocaína, como anestésico tópico) mas também, a estrutura de personalidade prévia e a co-morbilidade psiquiátrica (nas suas componentes mais transversais e nas variáveis mais da personalidade, designadas habitualmente do Eixo 2).

Este contexto psiquiátrico é, da nossa experiência, fundamental, desde logo e muito genericamente a condição de ansiedade/ameaça intensa (deprimimos na perda e ansiamos na ameaça), é terreno fértil para inoculação de uma condição de adição, mas também as pertubações “borderline”, a patologia depressiva mais ou menos severa, e toda a gama de patologias pré-psicóticas ou psicóticas incipientes (Conrad) que constituem um lastro substantivo para a organização de uma patologia desta índole.