Artigos

Esquecer não é o tratamento para os nossos males?

Eu não acho que seja sensato afastar/fugir de uma parte que é nossa (que nos compõe, e da qual somos continente), e que é tão rica dentro das possibilidades que nos oferece… proporciona-nos, por exemplo, o contacto com o nosso passado (o deprimido melancólico está “grávido de passado”), amadurece-nos como nenhuma outra coisa o faz (amadurecemos na tristeza, não na hipertimia) e, de uma forma geral, até em termos terapêuticos não me parece a “estratégia” a seguir. O lastro depressivo comparo-o, às vezes, às mãos calejadas vazias.

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Que papel têm os medicamentos (psicofármacos) no tratamento das doenças mentais?

Os medicamentos são extremamente importantes, muitas vezes decisivos, no tratamento das diferentes formas de dolência humana. Muitos dos mais notáveis avanços, em termos do tratamento e da arquitectura/organização da prestação de cuidados, tiveram por base os desenvolvimentos na área da psicofarmacologia. Contudo, é também importante, noutra linha, a aceitação das nossas limitações, a integração delas no nosso sistema de expectativas de forma a integrar, também, uma boa competência em termos da elaboração da frustração… sem limitar o pensar (sentir) em grande (o pensar alto pode ser mal interpretado…), nem que seja na sua forma energética mais elementar (pré-pensamentos, prefiro ante-pensamentos) prontos a serem burilados como o mais precioso dos diamantes.

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Caracterização do movimento assistencial em termos de saúde mental no nosso país?

O quadro assistencial, em termos de saúde mental no nosso país, tem vindo a sofrer nos últimos tempos profundas modificações (alguém as apelidou de verdadeira “revolução”, referindo-se aos contornos da aplicação da actual Lei de Saúde Mental), que implicam desenvolvimentos conceptuais em termos da própria doença mental, no planeamento estrutural da prestação de cuidados, no desenho das redes assistenciais, etc. São, não há dúvida, novos tempos que a história se encarregará de avaliar… neste “afã de fazer…” adivinham-se movimentos ou actos fracturantes com repercussões negativas em termos da componente social e pública (mais frágil…) da questão.

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A crise financeira/económica e social actual, influencia a forma e severidade do adoecer mental?

A decorrência humana (trans-histórica), mostra-nos que a capacidade de enfermar existe para além das “crises” situacionais. As crises representam uma ameaça, por isso são ansiógenas e, nesse ansiar, desorganizam o comportamento e impõem o accionamento de reservas adaptativas (que uns terão mais do que outros). Dentro ou fora das crises, é desejável um bom acesso às nossas partes boas, um exercício pleno (jogo), um vai-e-vem dos diferentes papéis psicológicos (e sociais) de que somos constituídos, e a capacidade de nos ancorarmos bem nas nossas acontecências histórico-vitais. A crise, e os novos modelos de gestão trazidos para o sistema, carrearam agentes investidos maniacamente de poder (oco e sem relação com os modos de fazer existentes) que se encarregaram de produzir colaboradores (“yes-coisas”) deprimidos, ameaçados e organizados (formatados) melancolicamente.

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As perturbações do espectro ansio-depressivo têm aumentado, em termos de incidência?

A realidade mostra-nos isso mesmo, e o trabalho em urgência psiquiátrica hospitalar pública (e no canal de ligação à realidade que esse setting representa) é hoje notavelmente saturado pelo sofrimento mental de cariz ansioso… A falta, o encurtamento e até o corte das expectativas projectáveis numa determinada linha histórico-vital, representa, a par de um leque largo de outros eventos (“life-events”), a acentuação da depressividade.

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